Quando o silêncio vira discurso
* Por Rogério Thomas

* Por Rogério Thomas
Em toda eleição, um fenômeno se repete com impressionante regularidade. Personagens que permaneceram em silêncio durante meses, ou até anos, reaparecem de forma repentina, empunhando um discurso inflamado contra os governos e prometendo soluções rápidas para problemas antigos.
A crítica é um dos pilares da democracia. Governos devem ser fiscalizados diariamente, não apenas durante o período eleitoral. O problema não está em criticar. O problema surge quando a crítica aparece apenas no momento em que ela pode render votos.
O eleitor precisa fazer perguntas que vão além dos discursos e dos vídeos produzidos para as redes sociais. Onde estava esse candidato quando os problemas que hoje denuncia aconteciam? Que posição assumiu nos momentos mais difíceis da administração pública? Participou dos debates? Apresentou propostas? Fiscalizou? Cobrou? Ou permaneceu em silêncio até perceber que a insatisfação popular poderia se transformar em capital eleitoral?
A política exige coerência. Quem realmente deseja representar a população demonstra compromisso durante todo o mandato, durante todo o ciclo político e durante toda a vida pública. Não apenas quando as urnas se aproximam.
Também é preciso desconfiar de discursos baseados exclusivamente na destruição da imagem dos adversários. Apontar erros é importante, mas governar exige muito mais do que denunciar. Exige preparo, conhecimento, capacidade de diálogo e, principalmente, propostas concretas e viáveis.
O eleitor moderno dispõe de ferramentas que gerações anteriores não tinham. É possível pesquisar o histórico dos candidatos, verificar sua atuação, acompanhar votações, declarações públicas, projetos apresentados e o comportamento adotado ao longo dos anos. Uma decisão responsável não deve ser tomada apenas por vídeos de poucos segundos, frases de efeito ou publicações impulsionadas nas redes sociais.
Outro ponto merece atenção: candidatos que transformam a indignação em espetáculo costumam apostar na emoção como substituta da razão. O excesso de acusações, a promessa de soluções simples para problemas complexos e a tentativa de dividir a sociedade entre “bons” e “maus” podem gerar engajamento, mas raramente produzem boa administração pública.
O voto é uma das maiores responsabilidades do cidadão. Antes de acreditar em quem surge com pedras nas mãos, vale investigar se essas mesmas mãos trabalharam, fiscalizaram e apresentaram soluções quando tiveram oportunidade.
A democracia se fortalece quando o eleitor pergunta, compara, verifica e decide com base em fatos, não apenas em discursos. Afinal, a memória também vota — e ela pode ser a melhor defesa contra o oportunismo político.
O melhor candidato não é necessariamente o que grita mais alto. É aquele cuja trajetória resiste às perguntas mais importantes.
Rogério Thomas
Formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) em Comunicação Social - Bacharelado em Jornalismo. Já correu esse mundão de Deus, mas ainda não viu de tudo.Veja Mais
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