Morre Roberto Tibiriçá, maestro que elevou a Orquestra Sinfônica do Paraná a um novo patamar artístico
Regente titular e diretor musical da OSP desde 2022, maestro deixa uma trajetória marcada pela excelência, pela formação de plateias e pela defesa da música de concerto brasileira

A música brasileira perde um de seus grandes maestros. Morreu, aos 72 anos, Roberto Tibiriçá, regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) desde 2022. O maestro estava internado em São Paulo em decorrência de um câncer contra o qual lutava há cerca de dois anos.
O velório será realizado em São Paulo. O local será divulgado assim que confirmado no perfil do Instagram do Centro Cultural Teatro Guaíra.
Ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas, Tibiriçá construiu uma das trajetórias mais importantes da regência orquestral brasileira. À frente de algumas das principais orquestras do país e do exterior, foi responsável por importantes momentos da música sinfônica brasileira, sempre com uma atuação marcada pelo rigor artístico, pela generosidade com os músicos e pelo compromisso com a formação de novas plateias e intérpretes.
Em pouco mais de quatro anos à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná, Roberto Tibiriçá deixou uma marca profunda na história da instituição. Seu trabalho contribuiu para elevar o nível artístico da OSP e ampliar seu reconhecimento no cenário nacional, levando a Orquestra a importantes palcos do país e consolidando uma nova fase de sua trajetória.
“Roberto Tibiriçá será sempre lembrado na história da Orquestra Sinfônica do Paraná e do Centro Cultural Teatro Guaíra. Mais do que um regente de extraordinária trajetória, foi um artista que acreditava na força transformadora da música e que, mesmo diante das dificuldades impostas pela doença, manteve até o fim seu compromisso com a orquestra, com os músicos e com o público. Tivemos o privilégio de acompanhar de perto o salto artístico que a OSP deu sob sua direção e de testemunhar momentos que ficarão para sempre na memória do Teatro Guaíra. Perdemos um grande maestro, mas seu legado permanecerá vivo em cada músico, em cada concerto e em cada pessoa que foi tocada por sua música”, afirma Cleverson Cavalheiro, diretor presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra.
Um dos momentos mais emblemáticos dessa trajetória aconteceu em maio de 2025, durante as comemorações dos 40 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná. Sob a regência de Tibiriçá, mais de 200 músicos e coralistas ocuparam o palco do Guairão para a execução da monumental Sinfonia nº 2, “Ressurreição”, de Gustav Mahler. O concerto tornou-se um dos grandes acontecimentos da história recente da instituição.
Naquele período, o maestro já enfrentava os efeitos da doença que comprometeria progressivamente sua saúde. Ainda assim, manteve sua dedicação à Orquestra.
Em 2025, Tibiriçá também conduziu a OSP em importantes apresentações fora do Estado, incluindo a participação no Festival de Inverno de Campos do Jordão, com apresentação na Sala São Paulo, e em Belo Horizonte, que levou o grupo pela primeira vez em sua história à Sala Minas Gerais, dois dos mais importantes palcos de concerto do país.
Esteve à frente da Orquestra em projetos de democratização da música de concerto, levando apresentações para fora do Teatro e a outros municípios do Paraná. Destaque para o projeto Mostly Mozart, que está em seu segundo ano, com concertos gratuitos dedicados ao compositor no vão-livre do Museu Oscar Niemeyer. Esteve à frente do processo de aquisição de vários novos instrumentos para a Orquestra no último ano, elevando o padrão do conjunto.
Sua última apresentação no Guairão aconteceu em 12 de julho, em um concerto simbólico. Tibiriçá regeu a Orquestra Sinfônica do Paraná em uma homenagem à pianista Analaura de Souza Pinto, uma das fundadoras da instituição e uma de suas mais longevas integrantes. Aos 70 anos, Analaura foi solista da Peça de Concerto para Piano, Op. 92, de Robert Schumann, em um programa dedicado ao romantismo alemão.
Mesmo já fragilizado, o maestro fez questão de estar também à frente da OSP em Londrina, no dia 16 de julho, numa apresentação dentro do projeto Guaíra para Todos, na programação do 46º Festival Internacional de Música de Londrina. Foi sua última apresentação pública.
UMA VIDA DEDICADA À MÚSICA
Nascido em São Paulo, Roberto Tibiriçá teve sua formação com alguns dos maiores nomes da música brasileira. Recebeu orientações de Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Dinorah de Carvalho, Nelson Freire e Gilberto Tinetti. Foi discípulo do maestro Eleazar de Carvalho, com quem trabalhou durante 18 anos, após vencer, por duas vezes consecutivas, o Concurso para Jovens Regentes da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
Sua carreira internacional começou ainda jovem, incluindo uma passagem como regente assistente do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, Portugal. Em 1994, assumiu a direção artística e a regência titular da Orquestra Sinfônica Brasileira. Depois, esteve à frente da Orquestra Petrobras Sinfônica, da Sinfônica Heliópolis, do Instituto Baccarelli, da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, da Orquestra Sinfônica de Campinas, da Orquestra Filarmônica de São Bernardo do Campo e da Orquesta Sinfónica del Sodre, de Montevidéu, no Uruguai.
Sua atuação foi reconhecida por importantes instituições e pela crítica. No Rio de Janeiro, foi eleito Músico do Ano de 1995 e recebeu o Prêmio Estácio de Sá pelo trabalho desenvolvido com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Recebeu, em 2010 e 2011, os XIII e XIV Prêmios Carlos Gomes de Melhor Regente Sinfônico. Em 2011, foi agraciado com a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do Estado de São Paulo, com a Grande Medalha Presidente Juscelino Kubitschek, concedida pelo Governo de Minas Gerais, e com o Prêmio APCA de Melhor Regente.
Tibiriçá também ocupava a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música e era membro honorário da Academia Nacional de Música. Em 2024, recebeu, por unanimidade, o título de Notório Saber da Universidade Federal de Minas Gerais, tornando-se Doutor em Música.
Ao longo da carreira, participou de importantes festivais internacionais, entre eles o Festival Martha Argerich, em Buenos Aires, a convite da própria pianista, e o Festival Villa-Lobos, na Venezuela, onde regeu a Orquestra Simón Bolívar. Também realizou gravações e estreias de obras de compositores brasileiros, mantendo uma relação permanente com a produção musical do país.
LEGADO PARA A OSP
Criada em 28 de maio de 1985, a Orquestra Sinfônica do Paraná construiu, em mais de quatro décadas, uma trajetória marcada pela excelência artística e pela difusão da música de concerto. Seu primeiro regente titular foi o maestro Alceo Bocchino, hoje maestro emérito. Desde então, a OSP teve entre seus regentes titulares nomes como Roberto Duarte, Jamil Maluf, Alessandro Sangiorgi, Osvaldo Ferreira e Stefan Geiger.
Em sua história, a orquestra já realizou mais de mil apresentações no Paraná e em outros Estados, além de importantes montagens de óperas e balés e primeiras audições mundiais, sul-americanas e brasileiras. Seu repertório reúne aproximadamente 900 obras de mais de 250 compositores, incluindo nomes fundamentais da música brasileira, como Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, além dos paranaenses Henrique Morozowicz e Augusto Stresser.
Foi nesse legado que Roberto Tibiriçá se inseriu e deixou sua própria contribuição. Sob sua direção musical, a OSP ampliou seus horizontes, encarou grandes desafios do repertório sinfônico e alcançou novos públicos e espaços.
Mais do que os concertos e os prêmios, fica a marca deixada pelo maestro nos músicos que trabalharam sob sua regência, nos artistas com quem dividiu o palco, nos colegas com quem trabalhou no Centro Cultural Teatro Guaíra, e nas milhares de pessoas que tiveram a oportunidade de ouvi-lo.
A Orquestra Sinfônica do Paraná e o Centro Cultural Teatro Guaíra lamentam profundamente a morte de Roberto Tibiriçá e se solidarizam com seus familiares, amigos, músicos, artistas e todos aqueles que tiveram suas vidas atravessadas por sua música.
Roberto Tibiriçá deixa o silêncio depois da música, mas também deixa uma obra que continuará a ser ouvida. Seu gesto à frente da orquestra, sua interpretação e sua dedicação à música permanecem como parte da história da Orquestra Sinfônica do Paraná e da cultura brasileira.
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