Com destaque para Guarapuava, Paraná é o 1º estado a usar Inteligência Artificial do Google no tratamento do câncer
A ferramenta Capricórnio do cardápio do Google vem sendo usada desde abril no Hospital do Câncer de Londrina e o Hospital São Vicente, em Guarapuava, para acelerar a identificação de terapias oncológicas de forma personalizada

Uma solução inovadora no combate ao câncer, nunca antes testada no Brasil, foi adotada pelo Governo do Paraná e implantada em dois hospitais de referência. Desde abril, o Hospital do Câncer de Londrina e o Hospital São Vicente, em Guarapuava, utilizam a ferramenta Capricórnio, do cardápio do Google, para acelerar a identificação de terapias oncológicas de forma personalizada. Dois meses depois, os resultados começam a aparecer e podem transformar tratamentos no Estado.
O impacto no atendimento e no diagnóstico é direto. Com a ferramenta, criada pela gigante de tecnologia em parceria com um hospital da Holanda, o médico consegue organizar e relacionar informações do paciente em tempo significativamente menor do que os processos tradicionais de revisão manual da literatura científica.
Na prática, o profissional cruza as informações obtidas por meio do PubMed com dados do paciente, como histórico clínico, mutações genéticas, testes de sensibilidade a medicamentos e respostas anteriores ao tratamento. Depois, o Capricórnio levanta métricas e indicadores de artigos científicos e apresenta possibilidades terapêuticas personalizadas para aquele caso.
Segundo o diretor médico do Hospital do Câncer de Londrina, Bruno Henrique Bressanini de Almeida, a pesquisa em bancos de dados durava, em média, uma semana antes da chegada da tecnologia. Essa análise precisava ser feita nos intervalos dos atendimentos ambulatoriais. Hoje, esse tempo caiu para apenas uma hora.
“Conseguimos filtrar estudos de uma certa mutação, selecionando apenas aqueles de um estágio específico da doença, combinando com as características clínicas do paciente. Tudo isso de uma vez”, detalhou. “A ferramenta atua como apoio à decisão clínica, auxiliando na pesquisa científica ágil e precisa”, complementa o diretor.
Depois do levantamento científico, os profissionais envolvidos no cuidado, do manejo clínico até a radioterapia e fisioterapia, se reúnem para tomar uma decisão. É por meio dessa discussão que as condutas são definidas. Até agora, o balanço da experiência é unânime: o processo ganhou assertividade, celeridade e personalização.
“Com os resultados obtidos pela ferramenta, diminuímos o tempo de internação e as chances de complicações, pois fornecemos uma medicina personalizada com base em dados científicos sólidos”, explicou o chefe da Oncologia Clínica do hospital da região Norte, Everton Germano Araújo Melo.
Um dos casos debatidos pela equipe multidisciplinar com o suporte da IA foi o de Ana Beatriz Carvalho, de 42 anos. Há três anos ela acompanha um tumor com origem nas células do sistema neuroendócrino. Recentemente, três pequenas lesões foram localizadas no fígado da paciente.
Munidos de literatura médica específica para o perfil dela, os médicos decidiram manter a terapia principal (injeções mensais que controlam o crescimento do tumor) e optaram por remover as novas lesões. Segundo Germano, a decisão foi fundamentada em evidências científicas que demonstram a eficácia dessa abordagem combinada. “A utilização de ferramentas de IA no processo de discussão representa um avanço metodológico que potencializa a medicina baseada em evidências, otimizando a qualidade e a eficiência das decisões terapêuticas em oncologia”, disse.
Para o paciente, o avanço tecnológico é importante por oferecer sobrevida e esperança. "Para mim, a gente tem que juntar a tecnologia com o conhecimento clínico dos médicos. Eu sou a favor da soma de novas tecnologias e novas medicações com os anos de estudo dos profissionais da saúde. Isso se transforma em qualidade de vida, não só para mim, mas para todos os pacientes oncológicos, que é pelo que mais lutamos: mais sobrevida", detalhou Ana Beatriz.
NOVA ROTA DE TRATAMENTO
Em Guarapuava, um estudo de caso chamou a atenção, de um paciente atendido há mais de um ano no Hospital de Caridade de São Vicente. Com um câncer de origem desconhecida, o caso desafiou a equipe médica desde o início, porque foram encontradas metástases nos linfonodos, ossos e pleura.
O oncologista Nelson Morozini explica que a plataforma do projeto Capricórnio foi fundamental para a tomada de decisão médica, tanto no cruzamento de dados moleculares como da otimização do suporte e manejo de complicações no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A ferramenta identificou que esse padrão atípico frequentemente está associado à instabilidade genômica, o que acendeu o alerta para solicitar um painel genético focado. Se confirmado, isso abre as portas para o uso de imunoterapia no futuro”, explicou o oncologista Nelson Morozini. Para ele, a IA funciona como um segundo cérebro da reunião multidisciplinar. “Ela não substitui o médico, mas acelera o acesso a dados científicos complexos, garantindo que um paciente com um tumor raríssimo no SUS receba uma conduta altamente personalizada, comparável aos melhores centros privados do mundo”, afirmou.
A Oncologia é uma das áreas que evoluem mais rapidamente na medicina. Por meio do Capricórnio, os profissionais de saúde têm acesso às atualizações em todo o mundo. Essas informações são fundamentais para reduzir o intervalo entre a descoberta científica e o tratamento oferecido à população.
A escolha dos dois hospitais paranaenses ocorreu pelo histórico de referência na área, pela integração ao Sistema Único de Saúde (SUS) e pela oportunidade de ampliar o acesso ao atendimento de qualidade no Interior, fortalecendo a descentralização da saúde no Estado.
PROJETO CAPRICÓRNIO
Desenvolvido em parceria com o Princess Máxima Center, situado na Holanda e considerado o maior centro de Oncologia Pediátrica da Europa, o Carpicórnio otimiza a pesquisa clínica ao reunir dados do PubMed - banco de dados global mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina do National Institutes of Health, principal agência do governo dos EUA responsável por pesquisas biomédicas e de saúde pública - que contém mais de 35 milhões de artigos biomédicos e cresce de 1,5 milhão a 1,7 milhão de novos artigos biomédicos publicados por ano.
Todos os arquivos são disponibilizados no BigQuery, plataforma de armazenamento e gerenciamento de dados do Google Cloud, onde, através de busca vetorial, os médicos conseguem realizar pesquisas de maneira semântica, indo além do cruzamento de palavras-chave exatas. Na prática, a ferramenta processa em minutos uma extensa literatura e cruza aos dados individualizados e anonimizados do paciente.
O objetivo do Capricórnio é impulsionar tratamentos personalizados, aprimorando a capacidade preditiva de sucesso de cada protocolo. A especialista em Inovação e Saúde Digital para o Brasil no Google Cloud, Priscila Cruzatti, reforça que a decisão final do tratamento continua sendo do médico. A plataforma atua como um suporte estratégico.
"O Capricórnio é um exemplo claro de como a Inteligência Artificial pode transformar a relação do médico com a evidência científica. O que estabelecemos no Paraná é um modelo eficaz e que pode ser facilmente replicado em outras práticas clínicas, como neurologia e saúde da mulher. Queremos garantir que profissionais de saúde em qualquer especialidade tenham acesso rápido e preciso ao conhecimento científico global para tomar decisões baseadas em dados”, afirma.
PIONEIRISMO
A adoção da tecnologia posiciona o Paraná em uma área estratégica de convergência entre inteligência artificial generativa, medicina de precisão e dados clínicos. A implantação do Capricórnio integra uma agenda ampla de transformação digital do Estado voltada à aplicação de soluções de inteligência artificial em serviços públicos.
O projeto integra o programa Transforma IA, que abriga uma série de soluções de inteligência artificial que o Governo tem implementado para modernizar a gestão pública e melhorar os serviços oferecidos à população. A iniciativa prevê investimentos em projetos voltados a áreas como segurança pública, habitação, agricultura e educação.
Conforme o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Marcos Stamm, a ideia é expandir a tecnologia para outras unidades hospitalares do Paraná. “Estamos falando de combate ao câncer e a IA está nos dando esse instrumento. O projeto foi incubado e naturalmente os resultados começaram a sair. Junto com a Secretaria da Saúde, vamos estabelecer os critérios para ampliar a usabilidade da plataforma”, detalhou.
Na área da saúde, a utilização de inteligência artificial envolve protocolos rigorosos de governança, proteção de dados pessoais, rastreabilidade e supervisão médica. A ferramenta utiliza apenas informações anonimizadas, seguindo diretrizes de segurança e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os modelos de projetos são disponibilizados ao Estado por meio do contrato da Secretaria da Inovação e Inteligência Artificial (SEIA) com a Celepar. A SEIA é responsável pela gestão e implantação de serviços de Inteligência Artificial na administração pública, conforme a Lei nº 22.324/2025. A Celepar, por sua vez, mantém contrato com a Google para o fornecimento das soluções tecnológicas utilizadas nos projetos.
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