Treinamento reforça papel estratégico dos cães dos Bombeiros em resgates
Mais do que localizar vítimas, os cães têm papel decisivo na estratégia operacional ao ajudar a descartar áreas de busca com segurança

O Corpo de Bombeiros Militar do Paraná (CBMPR), por meio do Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST), realizou nesta quinta e sexta (23 e 24 de abril de 2026) um treinamento de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas (BREC) voltado a médicos e enfermeiros do SIATE e do SAMU de Curitiba. A capacitação busca otimizar a atuação integrada com as equipes de saúde. Um dos módulos do curso foi a busca com cães, que evidenciou o papel estratégico desses animais nas operações de salvamento.
Treinados para localizar vítimas em meio a escombros ou em áreas de mata, os cães atuam a partir do olfato, sua principal ferramenta. No ambiente urbano, são empregados em ocorrências como desmoronamentos e soterramentos, podendo ser certificados para indicar tanto vítimas vivas, prioridade das operações, quanto para a recuperação de corpos.
Já em áreas rurais, atuam em modalidades como o “venteio”, quando percorrem livremente grandes áreas em busca de pessoas perdidas, e na busca por odor específico, a partir de uma referência olfativa previamente apresentada.
Mais do que localizar vítimas, os cães têm papel decisivo na estratégia operacional ao ajudar a descartar áreas de busca com segurança. Conforme explica o comandante do GOST, tenente-coronel Ícaro Gabriel Greinert, os animais integram um conjunto de técnicas e equipamentos utilizados nas buscas. “Quando batemos uma área com o cão e ele não indica nada, isso nos permite redirecionar equipes e concentrar esforços e recursos, como drone e câmera térmica, onde há maior probabilidade de localização. Isso otimiza tempo, fator essencial em ocorrências críticas”, destaca.
SELEÇÃO E TREINAMENTO
O preparo desses animais é rigoroso e começa ainda nos primeiros meses de vida. Nem todos os cães selecionados conseguem concluir o processo de formação. Aqueles que demonstram aptidão passam por cerca de um ano e meio a dois anos de treinamento até serem submetidos a certificações nacionais, específicas para cada tipo de atuação.
Durante esse período, são expostos a diferentes cenários e condições adversas, como ruídos intensos, operações noturnas, chuva, neblina e até deslocamentos em aeronaves, garantindo que estejam aptos a atuar em situações reais sem comprometer o desempenho.
O vínculo entre o bombeiro e o cão, que recebe o nome de binômio, é um dos pilares desse trabalho. Cada cão recebe treinamento e cuidados diários do bombeiro designado para atuar com ele, estreitando a relação entre a dupla e facilitando ao condutor perceber diferenças de comportamento do animal durante uma busca, fundamentais para o serviço.
“Eu digo que é a atividade mais desafiadora do Corpo de Bombeiros porque em geral nossas funções exigem equipamento funcionando e treinamento do bombeiro. Com os cães o cenário muda, é um ser vivo, então exige além do treinamento de ambos, atenção especial a este laço entre o binômio”, comenta o tenente-coronel Gabriel.
Ele destaca que os condutores muitas vezes são os primeiros a chegar no local da ocorrência e os últimos a sair pois precisam preparar e tratar os cães antes e depois da atuação. “Muita gente acha que é só gostar de animais, mas a rotina de treinamento e operação é bastante exigente para os condutores”, completa.
TRATAMENTO VIP
O cuidado com o bem-estar dos cães dos bombeiros é permanente e envolve treinamento diário, alimentação de alta qualidade, suplementação e acompanhamento veterinário constante. “Os cães do CBMPR recebem cuidados que muitas vezes superam os de animais domésticos. Isso garante saúde e longevidade, com muitos vivendo entre 14 e 16 anos”, afirma o cabo Fabiano Krul, cinotécnico do GOST e condutor de dois cães de busca, Hórus, um Pastor Belga Malinois de 6 anos, e Amora, uma Golden Retriever de 3 anos.
Ele ressalta que a estrutura da corporação voltada para os cães também inclui viaturas adaptadas para o transporte dos animais com climatização e controle de umidade, garantindo conforto e segurança mesmo em deslocamentos longos. “A atividade que eles realizam é de grande importância, mas na verdade para o cão, a busca e resgate é uma grande brincadeira. Por isso, a gente só emprega o animal em cenários onde já foi feita uma avaliação prévia e não há risco para ele. Antes de entrar em ação, toda a área é inspecionada”, explica o bombeiro.
Atualmente, o GOST mantém o canil central do CBMPR, em Curitiba, com 10 cães, entre já certificados e em processo de certificação. No total, em todo o Estado, são cerca de 30 cães, distribuídos também em canis setoriais nos municípios de Telêmaco Borba, Guarapuava, Cianorte, Londrina, Santo Antônio da Platina e Francisco Beltrão. A estrutura permite ampliar a capacidade de resposta e aproximar os recursos das ocorrências, inclusive com apoio aéreo para deslocamento rápido dos animais quando necessário.
Os cães do CBMPR já atuaram em algumas das maiores operações de busca e resgate do país, como o rompimento da barragem em Brumadinho (MG) em 20219, os deslizamentos de terra em Petrópolis (RJ) em 2022 e as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Além disso, participam frequentemente de buscas por pessoas desaparecidas em áreas de mata em todo o Paraná, ocorrências que, muitas vezes, têm desfecho positivo graças ao trabalho desses animais.
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