E, no fim, Baitala estava certo: quando a acusação vira manchete, mas o arquivamento fica esquecido
* Por Rogério Thomas

Há momentos na política em que uma frase, um vídeo ou uma denúncia dominam o debate público durante dias. A repercussão é imediata, as redes sociais fervem, os grupos de WhatsApp ganham combustível e, antes mesmo que os fatos sejam devidamente apurados, muita gente já escolheu culpados e inocentes.
Foi exatamente esse o roteiro que se desenhou em Guarapuava em uma denúncia, comprovadamente sem fundamentos, envolvendo a Secretaria Municipal de Saúde.
Quando deixou o cargo, em dezembro de 2025, o então secretário Márcio Brunsfeld fez acusações graves contra a administração do prefeito Denilson Baitala. Entre os pontos levantados estava a suposta interferência na fila de pacientes do Sistema Único de Saúde, o chamado “fura-fila”. As declarações ganharam enorme repercussão política.
Baitala reagiu.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito rebateu as acusações e classificou como infundadas as afirmações feitas pelo ex-secretário. Foi, essencialmente, a resposta pública do chefe do Executivo a uma crise que poderia ter produzido uma marca política duradoura sobre sua administração.
Baitala encerrou o assunto em uma tacada, uma publicação, com afirmações firmes e consistentes!
Agora, meses depois, veio aquilo que deveria ser considerado o capítulo mais importante da história: a investigação não confirmou a suposta interferência na fila do SUS.
Segundo informações divulgadas a partir do desfecho do procedimento, o Ministério Público do Paraná promoveu o arquivamento da apuração. Houve recurso, mas a decisão foi mantida pelo Conselho Superior do Ministério Público em 29 de maio de 2026, e o procedimento foi encerrado em 1º de junho. A conclusão apresentada foi de que não ficou caracterizada a prática de conduta destinada a furar a fila do SUS.
E é aqui que a política precisa parar para pensar.
A denúncia correu. O resultado caminhou em silêncio.
Quando a acusação surgiu, ela ocupou espaço. Foi compartilhada, comentada, explorada politicamente e transformada em munição contra a administração municipal.
Mas e o resultado?
Quantas pessoas que ouviram a acusação tomaram conhecimento do arquivamento?
Essa é a pergunta que deveria incomodar qualquer pessoa que leve a sério a democracia, o jornalismo e a responsabilidade com a informação.
Não se trata de dizer que um gestor público não pode ser criticado. Pode, e deve.
Também não significa que denúncias devam ser ignoradas. Ao contrário: denúncias envolvendo dinheiro público, saúde e atendimento à população precisam ser investigadas.
O problema começa quando a acusação passa a ser tratada como sentença.
Uma denúncia é uma denúncia. Uma investigação é uma investigação. E um arquivamento é um resultado que também precisa ser apresentado ao público.
Se alguém é acusado de cometer uma irregularidade e, depois de apuração pelos órgãos competentes, a acusação não é confirmada, continuar apresentando aquela acusação como se fosse fato comprovado é, no mínimo, intelectualmente desonesto.
A resposta de Baitala ganhou respaldo no desfecho da apuração.
O prefeito havia escolhido responder publicamente às acusações. Disse que elas eram infundadas.
O tempo passou.
A investigação veio.
E a acusação, não se sustentou.
É por isso que a frase “E, no fim, Baitala estava certo” pode ser provocativa, e, ao mesmo tempo, resumir uma questão relevante do episódio.
O perigo da política feita à base de acusações
A política brasileira, em todos os níveis, tem um vício perigoso: muitas vezes, a denúncia se tornou mais importante do que a prova.
A lógica é simples e cruel.
Primeiro vem a acusação.
Depois vem a repercussão.
Em seguida, os adversários políticos exploram o caso.
As redes sociais fazem o resto.
Quando a investigação termina, meses depois, o assunto já deixou de interessar a quase todo mundo.
É assim que reputações podem ser destruídas sem que exista uma condenação.
É assim que uma suspeita pode se transformar, na memória coletiva, em “verdade”.
E é justamente contra isso que o jornalismo responsável deveria trabalhar.
A má política também precisa ser denunciada
Há uma diferença enorme entre fiscalizar o poder e fazer política com acusações.
Fiscalizar é perguntar.
É investigar.
É confrontar documentos.
É ouvir o acusado.
É buscar provas.
É publicar o resultado.
Fazer política com acusações é outra coisa.
É lançar a suspeita no ambiente público e deixar que ela produza o estrago necessário antes que qualquer investigação chegue ao fim.
Se a denúncia for verdadeira, que se prove e que os responsáveis sejam responsabilizados.
Se for falsa ou não puder ser comprovada, que isso também seja dito com a mesma força.
Porque democracia não combina com tribunal de internet.
A população merece a história inteira
O caso da Saúde de Guarapuava deixa uma lição que vai muito além de Baitala, Brunsfeld ou qualquer grupo político.
O cidadão tem direito à denúncia.
Mas também tem direito à investigação.
E, principalmente, tem direito ao resultado.
Não é justo apresentar ao eleitor apenas o capítulo que interessa politicamente.
Se uma acusação ganhou manchetes, o desfecho também merece manchete.
Se uma denúncia foi usada para atacar uma administração, o arquivamento precisa ser lembrado quando o mesmo assunto voltar ao debate.
Afinal, a história não termina quando alguém acusa.
A história termina quando os fatos são apurados.
E, neste caso específico, o fato que ficou foi o seguinte: a suposta interferência para “furar a fila” do SUS não foi confirmada pela investigação do Ministério Público, e o arquivamento foi mantido após recurso.
Talvez essa seja a parte mais incômoda da história.
Porque, na política, muitas vezes a primeira versão chega de avião e a verdade chega de ônibus.
Mas quando ela finalmente chega, também precisa ser ouvida.
E, neste episódio, o tempo acabou dando razão à resposta que Baitala apresentou quando a acusação veio à tona.
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Rogério Thomas
Formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) em Comunicação Social - Bacharelado em Jornalismo. Já correu esse mundão de Deus, mas ainda não viu de tudo.Veja Mais
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