Doação de tecidos ajuda a recuperar queimados, tratar doenças e a devolver a visão

No Paraná, todo o processo de doação é regulado pela Secretaria de Estado da Saúde, por meio da Central Estadual de Transplantes

25/09/2026 14H10

Órgãos como coração, fígado e rins costumam ser os primeiros lembrados quando se fala em doação. Mas existe outra frente importante e ainda pouco conhecida pela população: a doação de tecidos. A campanha Setembro Verde reforça a conscientização para doação de órgãos e também de tecidos. Córneas, pele, ossos, tendões, cartilagens e tecidos cardiovasculares podem ser doados.

Eles são processados, armazenados e posteriormente utilizados em diferentes tratamentos. Dependendo do tecido, a doação pode contribuir para recuperar ou tratar a visão, recuperar grandes queimaduras, realizar enxertos, auxiliar em procedimentos ortopédicos e odontológicos ou reparar estruturas do coração.

No Paraná, todo esse processo é organizado e regulado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), por meio da Central Estadual de Transplantes (CET), além de uma estrutura que reúne hospitais, equipes especializadas e bancos de tecidos públicos e privados espalhados por todo o Estado. O resultado dessa rede aparece em situações concretas: um paciente que precisa de uma córnea para recuperar a visão, uma pessoa com uma grande área do corpo atingida por queimaduras ou alguém que precisa de um enxerto ósseo durante uma cirurgia. 

CÓRNEAS

Entre os tecidos mais transplantados estão as córneas. Neste ano, entre janeiro a agosto, conforme dados da CET, foram transplantadas 788 córneas, o que significa centenas de pessoas que voltaram a enxergar ou melhoraram a sua visão. As córneas também são a maior demanda do sistema, com 2.795 pessoas aguardando por um transplante. 

No Paraná, o Banco de Olhos Regional de Londrina (BOL), do Hospital Universitário de Londrina (HU), tem 15 anos de atuação e é o único banco público de olhos do Estado. O serviço integra a estrutura de transplantes coordenada pela Sesa. O banco recebe, trata e armazena as doações e depois encaminha, conforme demanda e a lista de espera organizada pela CET. Sua área de abrangência inclui mais de 90 municípios da região norte do Paraná, com 23 hospitais notificadores. 

Para que o banco receba as doações, o trabalho começa com as equipes de Organização de Procura de Órgãos (OPO), da CET. Elas estão espalhadas por todo o Estado em busca dos órgãos e tecidos e fazem o contato com a família, além da organização da retirada dos órgãos e tecidos. A ação da OPO nos hospitais é o primeiro passo para que um transplante seja realizado. 

A Sesa participa do financiamento dos procedimentos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e disponibiliza toda a estrutura da CET para que os bancos recebam os tecidos e façam o encaminhamento para as unidades onde serão utilizados. Essa rede envolve hospitais, equipes de doação de órgãos e tecidos, bancos especializados e unidades transplantadoras. 

É uma estrutura de alta complexidade, que exige profissionais especializados, logística, controle sanitário e equipamentos específicos para que o tecido doado possa chegar ao paciente em condições adequadas.

Grande parte das doações ocorre a partir de pessoas com diagnóstico de morte encefálica. A autorização da família é fundamental para a doação, e o processo segue os critérios estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.

TECIDOS

A doação de tecidos pode ter aplicações muito diferentes e atender um paciente que sofreu uma grande queimadura ou alguém submetido a uma cirurgia ortopédica de grande porte.

A pele humana, por exemplo, funciona como um curativo biológico para pacientes com grandes queimaduras. Ela protege a área lesionada, ajuda a evitar infecções e mantém a hidratação enquanto o organismo se recupera.

Os ossos podem ser utilizados em enxertos na odontologia e na ortopedia. Dependendo do procedimento, podem ser aplicados inteiros, em fragmentos ou processados para diferentes finalidades, inclusive em grandes cirurgias, como as que envolvem próteses de bacia.

Já tendões e cartilagens também fazem parte do grupo de tecidos musculoesqueléticos utilizados em procedimentos médicos. Na área cardiovascular, tecidos como o pericárdio são transformados em válvulas cardíacas.

MEMBRANA AMINIÓTICA

Outro tecido que começa a ampliar suas possibilidades de utilização é a membrana amniótica, retirada da parte interna da placenta. Incorporada neste ano ao SUS para utilização em transplantes, ela pode ser empregada como curativo biológico em medicina regenerativa no tratamento de queimaduras, feridas crônicas, pé diabético e doenças oculares.

Em Curitiba, o portador desses “ativos biológicos” é o Banco de Tecidos do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie. A unidade é a única do Brasil que reúne todos os tipos de tecidos em sua estrutura: globos oculares, ossos, pele, cartilagem, tendões, membrana amniótica, valvas cardíacas e pericárdio.

Cerca de 90% do que é doado e tratado no banco é destinado ao SUS, fazendo com que uma estrutura privada participe diretamente da rede de atendimento público de transplantes.


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