Dermatite atópica afeta sono, rotina e saúde mental; saiba como buscar tratamento

O que para muitos pode parecer uma simples alergia temporária ou irritação passageira é, na verdade, uma doença inflamatória, crônica e recorrente que afeta até 20% das crianças, a dermatite atópica

29/09/2026 11H23

Coceira persistente, pele seca e lesões avermelhadas que insistem em voltar. O que para muitos pode parecer uma simples alergia temporária ou irritação passageira é, na verdade, uma doença inflamatória, crônica e recorrente que afeta até 20% das crianças, a dermatite atópica. O alerta é da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que reforça a importância do diagnóstico correto e que tem o Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná (HDSPR), em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba, como uma estrutura especializada para o atendimento de casos moderados e graves no Sistema Único de Saúde (SUS).

A dermatite atópica trata-se de uma doença predominantemente pediátrica, na qual cerca de 90% dos casos se manifestam antes dos cinco anos de idade. No entanto, o problema pode surgir em qualquer fase da vida, inclusive na terceira idade.

O prurido (coceira) é o sintoma-chave da condição. Pela semelhança das lesões, a dermatite atópica costuma ser frequentemente confundida com outras afecções da pele, como dermatite de contato, dermatite seborreica, psoríase, escabiose, micoses e ictioses. Em bebês com quadros graves, infecções recorrentes e ganho de peso inadequado, a investigação deve incluir ainda possíveis erros inatos da imunidade e doenças genéticas raras.

O diagnóstico é estritamente clínico, baseado no histórico do paciente, no exame físico, na morfologia das lesões e na presença marcante do prurido. Não existe exame de sangue específico capaz de confirmar ou excluir a dermatite atópica. Embora testes possam mostrar alterações em marcadores como a IgE total e os eosinófilos, esses parâmetros não servem para fechar o diagnóstico nem para medir, isoladamente, a gravidade do quadro.

As áreas do corpo mais afetadas variam conforme a faixa etária. Nos bebês em fase de amamentação, as lesões surgem predominantemente no rosto, com destaque para as bochechas, couro cabeludo e superfícies extensoras dos braços e pernas. Nas crianças maiores, o acometimento passa a focar nas dobras dos cotovelos e joelhos, além do pescoço e mãos. Já em adolescentes e adultos, as dobras, o pescoço, o rosto e as mãos permanecem como os locais mais atingidos.

IMPACTO

Além do desconforto físico, a coceira crônica é o fator de maior peso na rotina do paciente. A perda da qualidade do sono é frequente, provocando dificuldades para adormecer, despertares noturnos constantes e sono não reparador, o que acaba por desgastar também os pais e cuidadores no caso das crianças.

A rotina escolar e profissional é igualmente afetada por problemas de concentração, irritabilidade, faltas ao trabalho ou às aulas e queda no rendimento. A saúde mental sofre um impacto direto com os sentimentos de constrangimento, baixa autoestima, ansiedade e depressão, que costumam acompanhar o quadro, fazendo com que muitos pacientes se isolem do convívio social.

No Paraná, onde as variações térmicas são acentuadas, o clima desempenha papel relevante. O ar seco, o frio e as mudanças bruscas de temperatura agravam o ressecamento da pele e intensificam a coceira em indivíduos predispostos. Por outro lado, o calor excessivo e o suor também podem disparar crises. A orientação médica é intensificar a hidratação nas épocas frias e secas, além de adaptar as roupas e os banhos conforme as estações.

No ambiente doméstico, os cuidados precisam ser diários e mantidos mesmo quando as feridas desaparecem. Recomenda-se prestar atenção ao tempo e à temperatura da água do banho, que deve ser morna e durar entre 5 e 10 minutos, evitar o uso de buchas, esfoliantes, banhos quentes e uso excessivo de sabonete, aplicando produtos suaves apenas onde houver acúmulo de suor ou sujeira. Deve-se fazer a aplicação frequente de cremes hidratantes sem alérgenos ou fragrâncias, logo após o banho e ao longo do dia, dando preferência às fórmulas mais espessas quando a pele estiver excessivamente seca. É indicado o uso de tecidos macios, preferencialmente 100% algodão, evitando o contato direto da pele com tecidos sintéticos ou de lã. As roupas devem ser lavadas com sabão suave e enxaguar bem para remover resíduos. Deve-se  ainda, evitar a exposição à fumaça de cigarro, aromatizadores ambientais, produtos de limpeza fortes e poeira. Em dias muito secos, recomenda-se manter a umidade do ambiente confortável, sem exageros que favoreçam o aparecimento de mofo e ácaros.

ATENDIMENTO ESPECIALIZADO 

O Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná adota diretrizes internacionais de conduta. A base do tratamento para todos os níveis de gravidade envolve ações de educação sobre a doença, uso diário de emolientes, corticosteroides tópicos e inibidores da calcineurina.

Para quadros moderados ou graves que não respondem à abordagem inicial, a unidade disponibiliza imunossupressores, imunobiológicos (terapias-alvo específicas) e sessões de fototerapia UVB de banda estreita para casos selecionados.

A porta de entrada do paciente no SUS é a Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico da Atenção Primária deve encaminhar o paciente ao especialista sempre que houver dúvida diagnóstica, ausência de resposta ao tratamento tópico adequado, quadro moderado a grave ou prejuízo importante no sono e na rotina. Já lesões dolorosas, disseminadas, com bolhas ou acompanhadas de febre exigem avaliação urgente.

Os atendimentos no Hospital são sempre agendados diretamente pelos municípios, a secretaria municipal da saúde possui acesso ao sistema de agendamento ambulatorial do Estado (CARE/GSUS) e com o encaminhamento do paciente faz o agendamento nas vagas disponíveis. A recomendação, portanto, é sempre seguir a orientação de buscar atendimento primeiro na UBS de sua referência. 

Outro ponto crucial destacado pelas equipes de saúde é o combate ao preconceito. A dermatite atópica não é contagiosa e não se transmite pelo toque, pelo abraço, pelo beijo, pelo compartilhamento de objetos ou pelo convívio em salas de aula e ambientes de trabalho. O aspecto avermelhado ou descamativo da pele reflete apenas um processo inflamatório crônico da barreira cutânea, e de forma alguma significa falta de higiene ou desleixo pessoal. O acolhimento pela família e pela sociedade integra o tratamento e é indispensável para devolver o bem-estar e a dignidade ao paciente.


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