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Eis a sentença do Governo

“Vocês não valem mais como cidadãos, mas sim como indivíduos supérfluos”.

por: Prof. Cláudio Andrade

quarta-feira, 29 de março de 2017

Não há consenso entre aqueles que nos governam. Não sabem o que fazer diante do que já fizeram. Executivo e Parlamento só negociam. STF e Procuradoria se desentendem.   Há uma clara disputa.  A operação Lava Jato sentencia empresários, políticos e também o país. Empresários não envolvidos e o setor produtivo limpo aguardam um mínimo sinal de melhoramento que não tem vindo. E a sociedade? Intimidada, retrai-se em mecanismos cegos de sobrevivência. Sua incapacidade de reação exala medo.

Como nunca antes neste país, o atual governo, sem nenhuma lucidez, ataca o dispositivo que bem ou mal sempre promoveu o brasileiro, a perspectiva. Retirou-se da população o único mecanismo de proteção que dispúnhamos para enfrentar a desordem e o vazio, a esperança no dia seguinte. 

Anos atrás o sociólogo italiano, Domenico Di masi (autor de vários livros, entre os quais “O ócio criativo”, via no povo brasileiro um laboratório de qualidade de vida e criatividade para o mundo. Em seu último livro “O futuro chegou” ensaiava que o Brasil tinha boas chances de consolidar um novo modelo para o mundo. Referia-se à baixíssima depressão do brasileiro em relação a outras culturas. Por diversas vezes escreveu que éramos o povo menos infeliz do mundo. Agora, cenário é bem outro e o que impressiona não é outra coisa senão a velocidade dos acontecimentos e sua interferência em nosso comportamento coletivo.

Disparadamente somos o país da descrença e da paralisia política. Um povo que não consegue mais crer. O Governo instalado passa a seguinte sentença aos brasileiros: “vocês não valem mais como cidadãos, mas sim como indivíduos supérfluos”. Eis o nascimento da tragédia do povo brasileiro, o casamento entre política e delinqüência. O legado que se tem é: a classe média voltou a ser marginalizada e os marginalizados passaram aos status permanente de miseráveis. Não há mais orientação e sentido. Não há mais escrúpulo.

Somos irremediavelmente mais fracos e não temos condições alguma de derrotar o atual congresso, o atual Executivo e uma parte significativa do judiciário que, em noites brasilianas, planejam o fim das eleições em 2018 em um plano macabro de tentar fazer o dever de casa que é: melhorar minimamente o país (mascarando a realidade) e sufocar parte da justiça que ainda age.

O sistema político vigente não quer correr risco algum. Com um discurso de unificar as eleições em 2020 e impor listas fechadas, este governo tratoraça o país sem a mínima consulta pública. O que nos resta além de ser resto? Resta-nos poucas coisas. Não cabe agora perspectivas grandiosas do que se fazer. Resta-nos continuar resistindo à nossa maneira e alimentando nosso ideal com pequenas tarefas do dia-dia. A imagem confusa do país faz nascer um número expressivo de pessoas cínicas e narcísicas. Mesmo assim, precisamos reconhecer que “não há homem e mulher, sem ideais”. 

O amanhã tende a ser sombrio e a saída, ao que tudo indica,  acontecerá quando homens e mulheres considerados comuns, do mundo ordinário, deflagrarem em seus ambientes uma insurreição jamais vista em nosso país com o grito de ‘Vão se todos!’.  Quem sabe Domenico Di Masi voltará a dizer que o povo brasileiro será um modelo para o mundo, ou seja, um povo que venceu o cinismo, o narcisismo e a delinqüência política com uma guerra civil especial, diferente da convencional, ou seja, não mais cidadãos brasileiros contra cidadãos brasileiros, mas sim, governados brasileiros  contra governantes brasileiros. 

 

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Sociedade e Política

Prof. Cláudio Andrade

Professor Universitário (UNICENTRO), Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista - UNESP.