AgronegóciosEducaçãoEsporte e LazerGeralObituárioPolíticaRegiãoSaúdeSegurançaVariedades
ColunistasVídeosÚltimasGaleria de Fotos

Mulheres, pilates e abolição

por: Dejair Dionísio

sábado, 12 de maio de 2018 - 13:26:00

Após 130 anos de abolição da escravidão no Brasil, o que pensamos sobre? Bem, vamos tentar pensar juntos sobre isso. O primeiro contexto que me vem à mente é sobre minha mãe. Ela não é a Alcione, a Marrom homenageada neste ano pela escola de Samba de São Paulo "Mocidade Alegre", (apesar de não faltar alegria à minha mãe); ela também não é Dandara, a linda princesa que encantou o mundo e que até hoje inspira o mundo da moda e do empoderamento de mulheres no planta e nem é a Karol Konká, mãe solteira e que "tombou" o Brasil, com seus looks desafiadores e com sua fera linguística. Mas ela é minha Ângela Davis brasileira, da mesma forma que a norte-americana ousou discutir o direito de ir e vir para além, somente, dos direitos civis dos negros/as norte-americanos/as no Estados Unidos.

As duas, na verdade, meio que são contemporâneas, uma do lado de cá, na América Latina, outra do lado de lá, na América Inglesa. Pois é... duas mulheres e mães de causas tidas como impossíveis. A minha alegou esses dais, ""recusar de uns cadernos para aprender a escrever e ale coisas", já que ela estudou só um ano no banco escolar. Pois é, fiquei sem fala, não sabia de nada disso. Até me comprometi a ver isso, mas daí descobri, que não sabia como trabalhar com jovens adultos... Ia pedir ajuda para minhas amigas Angélica Torres e Stela Bichuete, ambas experts na educação de jovens e adultos e acabei não indo atrás.

Então aproveito para dizer publicamente que farei isso. Minha mãe é meio que uma maria Firmina dos Reis - sem ter sido professora, meio que uma Carolina de Jesus, não tendo sido catadora de papel, mas foi ela, uma secretaria do lar lá em Londrina -PR, minha cidade natal. Mas daí te digo uma: ela, até hoje, não precisa de Pilates - desculpe aí Dani Pantarolo, pois sempre esteve preocupada com o peso, dentro das suas especificidades, sempre cantou para afastar a dor, sempre dançou, e como dançou, até cantora de rádio foi. Mas o 13 de maio que se relembra agora no mesmo dia das mães, neste domingo, não favoreceu minha mãe e suas conterrâneas no dia 14 de maio, a tese do Hélio Santos, jornalista de Sampa. Ele diz que a crítica ao racismo mostra como a cidadania ainda é algo a ser conquistado pelos negros no Brasil. África, ventre do mundo, base óbvia da civilização humana como a genética moderna já confirmou: a Eva Africana, aquela que desmistifica ser Eva do Adão, a primeira a desmistificar o homo sapiens, foi feminina, sem essa de sair da costela do Adão. Mulheres como você, que agora lê esse apanhado de ideias, mulher como você, homem filho óbvio de uma mulher, que me lê agora.

Que o dia das mulheres seja muito mais reflexivo, sem a necessidade de que ela fique eternamente na cozinha lavando pratos, no banheiro limpando o vaso ou no tanque lavando suas cuecas. Parabéns a você minha mãe, parabéns a você mulher, parabéns as várias mães dos filhos dos outros/as, as professoras e educadoras, que tão necessárias e constantes que são, acabam não sendo percebidas na nossa sociedade. Obs.: pelo menos neste domingo 13 de maio, limpem a bagunça do churrasco e retirem as cascas do pinhão.

COMENTÁRIOS





O mundo que nos cerca

Dejair Dionísio

Doutor em Literatura/UEL, escritor, ensaísta, professor universitário (UNICENTRO), membro da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as

Mais textos de Dejair Dionísio