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O Grande Encontro

por: Flávia Maria Batista

sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Eu vim de um tempo onde só existia um lugar, um país chamado Sentimentosfera e não havia mais lugar nenhum no mundo. Neste país havia um local que desde criança me chamou a atenção: era uma casa simples,  logo após a última árvore que se avistava no vale onde eu estava.   
 
Ninguém nunca soube exatamente quem morava lá, se era homem, mulher, menino, menina ou sentimento. Nem de onde veio, nem ao menos o porquê insistia em esconder-se do mundo e aparecer apenas para poucas pessoas. Aquela velha casa e sua chaminé, que trabalhava a todo vapor, intrigava-me desde a tenra idade, quando sonhos, fantasias e suposições eram criadas a todo tempo para explicar o que não podia ser revelado naquele momento. Por mais que minha vida tenha ido para muitos lugares diferentes, ainda ficava inquieta ao pensar naquela casa distante e simples, que nunca, em dia algum, deixava de inconscientemente, me mandar um sinal através da fumaça da sua chaminé. Eu me lembro que tomei conhecimento daquela casa quando tinha apenas cinco anos de idade e desde aquele tempo, nunca mais a esqueci.
 
Um dia, depois que todas as suposições haviam se esgotado, depois que toda a minha esperança em ser feliz havia se esgotado, eu resolvi sair, peregrinar e andar em direção àquela casa. Não sabia o que exatamente me motivava a tomar aquela decisão, apenas precisava fazer a travessia, ir... Então eu fui.
Não imaginava que seria tão difícil. O caminho para aquela casa era pedregoso, lamacento, fechado pela mata nativa da região. Durante toda a peregrinação, durante todos os momentos do caminho eu vi minha vida passando diante dos meus olhos. Eu sofri com as pedras, eu caí com os buracos escondidos, eu sangrei com os espinhos e com os galhos da mata. Eu descansava durante o dia, e nestes momentos de relaxamento e calma eu identificava várias belezas no meio do caminho, quantas flores, quantos frutos, fontes, animais e alguns poucos viajantes fazendo o mesmo trajeto que eu, uns a minha frente, outros atrás de mim, mas todos haviam sentido o chamado e atendido a ele. Dor, vontade de desistir, lágrimas, alegrias e alívios. Tantas sensações eu experimentei no decorrer do percurso!
 
À medida que a distância até a casa ia diminuindo meu coração desconfiava, mas mesmo desconfiado havia algo como uma intuição, uma voz sussurrando para que eu prosseguisse, uma alegria e uma consciência sem explicação começavam a ser nutridas.
Finalmente eu cheguei!
 
Era final da tarde quando meus pés adentraram o terreno onde ficava a velha casa. Meu coração, aos pulos, experimentava um misto de excitação e medo.
Devagar e reticente eu bati na pequena porta de madeira envelhecida pelo tempo. Quem haveria de me receber? Uma velha má com o coração gelado? Um velho rabugento que me receberia com um machado na mão? Um assassino? Um criminoso cruel nunca encontrado para pagar por seus crimes? Quem afinal morava naquela casa que desde os meus 5 anos me chamava para o caminho?
 
E então ouvi passos vindos de dentro da casa, o trinco se moveu, fiquei tensa, a porta finalmente se abriu.
Havia me preparado de todas as maneiras possíveis para enfrentar qualquer situação que aquela porta me trouxesse. Mas fui completamente desarmada quando olhei para aquele ser parado à porta, rindo com o sorriso mais encantador e maravilhoso que já havia visto na minha vida e com os olhos marejados de emoção. Eu, admirada e encantada demais para conseguir falar, só consegui retribuir o sorriso, meio sem jeito e totalmente sem reação. 
 
- Boa tarde minha querida jovem, esperei por você durante décadas. Eu sabia que você viria. Vamos entrar, temos muito a conversar.
Quem me recebeu foi um senhor de longas barbas brancas, com seu corpo franzino e seus cabelos compridos e grisalhos, sorridente como uma criança que acabara de ganhar um novo presente. A casa, de uma simplicidade e de um aconchego que eu nunca havia provado na vida, me fez lembrar todas as cenas e momentos felizes que passei na minha infância. O senhor me mostrou cada cômodo da casa e me conduziu até uma pequena varanda que ficava atrás da casa, sentamos em duas poltronas muito confortáveis colocadas no canto esquerdo da varanda onde eu pude, por alguns minutos, admirar a paisagem, estonteante.  Até que ele finalmente me chamou pelo nome e começou a falar: 
 
- Minha querida jovem permita-me me apresentar. Chamo-me AMOR e ainda que eu seja muito receptivo e goste muito da companhia das pessoas, não entro na casa de ninguém sem que eu seja convidado, nem ao menos dirijo meu olhar àqueles que não permitem que os olhos possam encontrar outros olhos, eu sou gigantesco, ainda que muitas pessoas me considerem fraco e desnecessário e não venham até mim temendo a fraqueza e a dor. Sou aquele que está em todos os lugares de uma forma tão firme e sutil que poucos identificam. Sou aquele que muitos negam pensando que perderão o poder e o controle de suas vidas se tentarem me conhecer. Eu abro as portas da minha casa com felicidade e honra, mas somente àqueles que batem.  
 
E sou velho, sim minha querida, sou muito velho, porque estou nestas terras desde o primeiro sopro de vida, sou o primeiro, sou o UM. Somente depois de mim todos os outros puderam chegar. E serei o último, sempre, pois sou o único que esteve ao seu lado, ocultamente, durante toda a sua vida. Muitos jamais me conhecerão, nunca terão coragem, nunca sairão do conforto de suas vidas estáveis e ilusórias em uma busca por mim, nunca darão um passo em minha direção, e ainda assim, eu estive, estou e estarei com você e com todos os outros, até que toda a vida seja extinta e eu precise criar um novo País para viver. Sim, eu vou viver para sempre, pois sou eterno.  E ainda que esteja em todos os lugares, eu nunca invadiria a vida de ninguém sem ser convidado e sem ser procurado, por isso talvez muitos passem por essa existência sem olhar nos meus olhos e sem ganhar todas as honras e glórias que eu tenho a oferecer.
 
- Agora venha, tenho presentes maravilhosos para você, os guardei durante anos somente para você. Você fez o percurso, você persistiu apesar de toda a dor que eu sei que sentiu. 
 
Você é merecedora, são meus presentes para você, agora limpe essas lágrimas e os receba, pois são dados de todo o meu coração.
 
por:  Flávia Maria Batista

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Desenvolvimento Pessoal e Autoconhecimento

Flávia Maria Batista

Graduada em Letras pela UNICENTRO e Especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela UNIVALE. É professora e terapeuta

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